quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Carne e Peixe

Ainda eu estava com a carne no assadouro e já passaste para o peixe!
Por agora vou continuar nos prazeres da carne.

Enfiaste-nos numa linha férrea de carris estreitos, com muitos apeadeiros e estações, que tal como a linha do Tua, de quando em vez rola um calhau e balda-nos para o precipício.
Vamos lá tentar deslindar isto.
A música tradicional ou de cariz tradicional como alguns a preferem chamar, para mim, música popular, que nada tem a ver com a apelidada música “Pam, ai meu amor, Pum se tu quiseres, Pimba”.
Feita pelo povo e para consumo próprio.
Como ritual de trabalho, religiosa ou pagã.
Está na raiz da maior parte da música que por cá se faz.
Vou começar por aqueles que se preocupam, ou preocuparam por a recolher, ou como disse anteriormente a “engarrafar”. O maior impulsionador desta actividade, a minha homenagem, esse corso que um dia se estabeleceu por Portugal nos anos sessenta, Jean-Michel Giacometti. Sem o seu trabalho e do grande Fernando Lopes-Graça muita da (in)formação musical de Portugal tinha ido …
Cresci com alguns discos em casa (fica sempre bem dizer isto) dos quais ainda me lembro bem e que aqui queria referenciar como, para mim, bons exemplos.

O primeiro e do qual não encontrei quaisquer referências áudio ou visuais na net, o que me deixou assaz surpreendido, são os “Terra a Terra” de Ana Faria (sim a dos Queijinhos Frescos) e Mário Piçarra (filho de um grande lampião, lamentavelmente), principalmente no álbum “Pelo Toque da Viola”.



Outro que também “engarrafou” e bem e que tornou hinos da música tradicional temas como “Menina estás à janela”, “ Se fores ao Alentejo”, “Vou-me embora vou partir” ou “Semear salsa ao reguinho” foi Vitorino Salomé, todas estas e muitas mais foram descobertas por ele, que infelizmente depois de uns mojitos e margaritas na ilha do homem do fato de treino Fidel, se passou para o “outro lado”. Muita pena!



Fausto, Julio Pereira, Zeca Afonso de entre muitos outros merecem também destaque.
Mas nem só nesta geração se fez este trabalho, e enquanto se faz por aí muita publicidade enganosa e se vendem discos com música “p’ra pular” com Bacalhaus e Estradas para iludir, há alguém que trabalha bem, como é o caso dos At-Tambur, de quem aconselho não só a música como também o sítio internautico.

http://attambur.com



Bom Ano!

6 comentários:

  1. Eina....isto é que foi ripar a rama e pisr a azeitona.

    Primeiramente penso que(parece o Cristiano não é?):

    1- Não há musica tradicional Portuguesa, porque não há tradição de coisa nenhuma, existem sim hábitos, modas locais ou regionais que se revelam pelos instrumentos utilizados, pelas linhas harmónicas, pelos tajes, pelo estilo de conjunto, pela temática da letra, etc, etc...exemplo, em qualquer lado de Portugal, duas aldeias vizinhas interpretam de forma diferente a mesma canção, no entanto podem ser dois ranchos folclóricos.
    Resumindo, a única constante é a inconstância da evolução e do devir melómano luso.

    2- Por vezes em trabalhos de recolha, como o do Giaco, ou dos Terra a Terra, ou dos Trovante, ou das centenas de Filarmónicas, Orquestras e bandas por este país, cristaliza-se um pouco da história musical...ou seja é como tirar uma foto de um local numa dia do ano e guardar...depois de ter sido tirada já está desactualizada...mas fica o registo e vale pelo acervo cultural, social, etno-folclórico e artístico.

    3- Existem milhares de formas de interpretar a moda do Vitorino, a N. S. do Almortão, a Rama Ó que Linda Rama, etc...nenhuma é a tradicional pois essa versão não existe.

    4- O preconceito que ficou como herança salazarenta da forma como ainda hoje se analisa o que é "tradicional" como sendo "verdadeiro" é um erro...não é necessário silêncio para se cantar o fado.

    5- O pimba é mais um preconceito dos nossos dias instituído no meu entender como forma de depreciar uma variante interpretativa musical...ora pra mim, não há má musica (antigamente ainda dizia que existia boa e má), hoje em dia depois de ouvir de quase tudo digo que existem apenas boas e más interpretações...

    6- Antigamente também havia o pumba e vira pra cá e mete a fralda no regueiro e apanha a laranjinha etc etc etc, como existe hoje...apenas os "media" ou "midia" são o que são...

    7- Viva Fidel! e acerca do poder musical daquela ilha...ui ui...

    8- Os Deolinda tem o principal mérito de trazer outra vez a noção de um "disco" contar uma estória, desde a 1 à última musica...

    Enfim...assim acontece...e hei-de encontrar os TaT...sim sim

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  2. esqueci-me de referir que quando afirmo que é tudo uma questão de interpretação, estou a aceitar a alteração de uma composição...quando os sapatos estão mal feitos não há pé que aguente! Tal como Luciano Berio, a ligação emocional que temos aos sons, aos ritmos, é superior a qualquer preconceito de estilo ou forma.

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  3. Grande texto, sim senhor.
    Só discordo no "mérito" dos Deolinda!
    Então e o Fausto? Escolhe o disco que quiseres!
    E o Homem na Cidade do Ary / Carmo.
    Até o .... Veloso o fez, e se procurares bem vais encontrar mais.
    Haaaa, e aqueles que traziam a fisga no bolso de tráz!

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  4. sim sim tens toda a razão...quando disse que eles tinham esse mérito não disse que eram unicos nem os melhores...lembras os Rio Grande...muito bom, hoje temos os Bairro Popular (?) do Gil e da malta (letras e vozes) da Herdade da Ferradura, centro do mundo FICALHO RULA!!! que ainda só ouvi duas modas e gostei...gosto do Gil pá! e do gajo da Aldeia Nova que agora não me lembro do nome e não me apetece ir à net ver só para escrever o nome dele...deixa-me perguntar à patroa...ahhh qq Monge...esse mesmo. Até os Delfins com O outro lado existe tinham um LP completo com estória...eu gosto da sonoridade dos Deolinda mas acho-os muito limitados e de pavio curto...aborrece rápido pois falta o salero de outro instrumento, sei lá, talvez um trompete, um sax com contrabaixo e porque não uma guitarrada...tipo Dead Combo, Naifa...sei lá...mas aí estou a mexer no Mestre Aguardela...aquele que disse que gostava que a musica porguesa gostasse dela propria...

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  5. Ary é um poeta que melhor soube vestir as melodias em Portugal...e sabia fazer vestidos de gala, de noiva e também se necessário, fatos de treino e fatas de macaco...

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  6. é pahhhh
    Aguadela e os seus Megafones, com os sons "engarrafados", como já comentámos anteriormente, pelo Jean-Michel, é mesmo muito bom, e só vem confirmar o que disseste anteriormente sobre a música tradicional/popular com ou sem cariz.
    Já tinha pensado colocar uma homenagem ao grande João.

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